O que aconteceu?
A INTERPOL divulgou em 25 de agosto de 2026 os resultados da quarta edição da Operation Jackal, iniciativa internacional voltada ao combate de grupos de crime organizado da África Ocidental.
Segundo a organização, a operação reuniu autoridades de 22 países, entre eles Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Alemanha, França, Itália, África do Sul, Nigéria, Japão e Emirados Árabes Unidos.
O trabalho resultou em:
- 58 prisões;
- 263 suspeitos identificados;
- bloqueio de centenas de contas bancárias;
- apreensão de dinheiro, criptomoedas e propriedades;
- avanço em investigações internacionais de lavagem de dinheiro.
Quais grupos estavam na mira?
A INTERPOL cita redes criminosas da África Ocidental, incluindo grupos como o Black Axe e organizações semelhantes.
Segundo a agência, essas estruturas estão envolvidas em uma parcela relevante das fraudes financeiras habilitadas por meios digitais, incluindo:
- golpes românticos;
- falsos investimentos;
- fraudes com criptomoedas;
- Business Email Compromise;
- lavagem de dinheiro;
- outros crimes financeiros e violentos.
O que é Business Email Compromise?
O BEC é um tipo de fraude em que criminosos se passam por:
- executivos;
- fornecedores;
- funcionários;
- parceiros comerciais.
O objetivo normalmente é convencer uma vítima a realizar uma transferência bancária ou alterar dados de pagamento.
Em muitos casos, não existe malware envolvido. O ataque depende principalmente de engenharia social e fraude de identidade.
Argentina identificou rede de Crime-as-a-Service
Na Argentina, autoridades identificaram 196 pessoas supostamente envolvidas em uma grande rede de Crime-as-a-Service — CaaS.
Segundo a INTERPOL, a estrutura fornecia serviços para outros grupos criminosos, incluindo:
- fornecimento de domínios;
- suporte a infraestrutura;
- lavagem de dinheiro.
A investigação resultou em:
17 prisões.
O que é Crime-as-a-Service?
O modelo funciona de maneira semelhante à terceirização no mercado legítimo.
Um grupo criminoso não precisa desenvolver sozinho todas as capacidades necessárias.
Ele pode contratar outros operadores para fornecer:
- infraestrutura;
- contas bancárias;
- domínios;
- malware;
- acesso inicial;
- lavagem de dinheiro.
Isso permite que grupos com menos conhecimento técnico realizem operações sofisticadas utilizando serviços comprados de terceiros.
África do Sul prende 39 suspeitos
Na África do Sul, autoridades realizaram buscas em sete locais de Johannesburgo relacionados a uma organização que supostamente operava golpes românticos e falsos investimentos.
As vítimas eram principalmente aposentados de países de língua inglesa.
Segundo a investigação, a organização funcionava com uma estrutura próxima à de uma empresa convencional.
Os participantes possuíam funções específicas como:
conversion agents
e
retention agents.
Essas pessoas atuavam em diferentes etapas para convencer vítimas a investir dinheiro ou continuar enviando recursos.
Resultado da operação
As autoridades sul-africanas:
- prenderam 39 pessoas;
- apreenderam aproximadamente US$ 2,67 milhões;
- bloquearam 257 contas bancárias.
Romênia desmonta esquema ligado a €143 milhões
Outro caso importante ocorreu na Romênia.
As autoridades desmantelaram uma organização que operava um call center de investimentos fraudulentos.
As vítimas eram convencidas a investir em:
- ações;
- criptomoedas;
- supostas oportunidades com altos retornos.
O dinheiro era posteriormente direcionado para carteiras controladas pelos criminosos.
Segundo a INTERPOL, o esquema está relacionado a aproximadamente:
€143 milhões roubados e lavados globalmente.
Apreensões
A polícia prendeu 11 pessoas e apreendeu aproximadamente:
- €330 mil em dinheiro e criptomoedas;
- seis propriedades;
- diversos relógios de luxo.
É importante destacar que o valor de €143 milhões é uma estimativa do montante associado ao esquema investigado, e não o valor efetivamente recuperado pela operação.
Itália identifica esquema de lavagem internacional
Na Itália, um suspeito foi identificado em conexão com uma rede europeia de lavagem de dinheiro.
Segundo a INTERPOL, o esquema utilizava:
- empresas de fachada;
- serviços de remessas;
- saques em dinheiro;
- diferentes instrumentos financeiros.
Uma única conta bancária movimentou:
€845 mil em 560 transações
utilizando 20 instrumentos financeiros diferentes.
O objetivo era dificultar o rastreamento da origem e do destino dos recursos.
Crime organizado está adotando modelo empresarial
Um dos pontos destacados pela investigação é a crescente profissionalização dessas redes.
Em vez de grupos pequenos operando informalmente, autoridades encontram estruturas com:
- divisão de funções;
- operadores especializados;
- infraestrutura terceirizada;
- lavagem profissional;
- equipes dedicadas a manipular vítimas.
Esse modelo permite executar golpes em larga escala e manter operações simultâneas em diferentes países.
Sextorsão contra menores também preocupa
A Operation Jackal IV também permitiu à INTERPOL identificar tendências emergentes.
Uma delas é o aumento do uso de sextorsão contra menores de idade, incluindo vítimas com apenas 14 anos.
O padrão observado envolve criminosos que:
- entram em contato por redes sociais;
- constroem uma relação de confiança;
- convencem a vítima a enviar imagens íntimas;
- ameaçam divulgar o material;
- exigem dinheiro para não publicar o conteúdo.
Esse tipo de crime combina engenharia social, extorsão e abuso psicológico.
Dark web é usada para terceirizar serviços criminosos
A INTERPOL também observou grupos recorrendo a fornecedores externos, frequentemente encontrados na dark web, para terceirizar operações.
Entre elas está principalmente a lavagem de dinheiro.
Isso demonstra como o ecossistema criminoso atual funciona cada vez mais como uma cadeia de fornecedores especializados.
Em termos simples
Um grupo realiza o golpe.
Outro fornece o domínio.
Outro disponibiliza contas bancárias.
Outro movimenta criptomoedas.
Outro lava o dinheiro.
Essa fragmentação dificulta investigações, porque diferentes partes da mesma operação podem estar localizadas em países distintos.
Operation Jackal já teve quatro edições
A iniciativa começou em 2022.
Jackal I — 2022
A primeira edição resultou em:
- 75 prisões;
- 49 buscas;
- aproximadamente €1,2 milhão interceptado em contas bancárias.
Jackal II — 2023
A segunda operação produziu:
- 103 prisões;
- 1.110 suspeitos identificados;
- 208 contas bloqueadas;
- €2,15 milhões apreendidos ou congelados.
Jackal III — 2024
A terceira edição resultou em:
- 300 prisões;
- 400 suspeitos identificados;
- mais de 720 contas bancárias bloqueadas.
Jackal IV — 2025/2026
A operação mais recente ocorreu entre novembro de 2025 e junho de 2026 e concentrou esforços em:
- lavagem de dinheiro;
- identificação de alvos de alto valor;
- apreensão de ativos;
- apoio a prisões e processos judiciais.
Análise Técnica CyberX
O cibercrime deixou de ser apenas um problema técnico
A Operation Jackal IV demonstra que operações de fraude digital precisam ser analisadas como estruturas financeiras e empresariais, e não apenas como incidentes envolvendo malware ou phishing.
O ponto crítico normalmente é:
vítima → fraude → conta intermediária → movimentação internacional → lavagem de dinheiro.
Por isso, combater esse tipo de ameaça exige mais do que bloquear um domínio ou remover um malware.
É necessário acompanhar o fluxo financeiro.
Crime-as-a-Service reduz a barreira de entrada
A identificação de uma rede que oferecia domínios e lavagem de dinheiro mostra a maturidade do mercado criminoso.
Um operador não precisa dominar:
- desenvolvimento;
- infraestrutura;
- engenharia social;
- criptomoedas;
- lavagem.
Ele pode terceirizar partes do ataque.
Isso permite que mais criminosos operem em escala mesmo sem possuir grande conhecimento técnico.
Identidade continua sendo um dos principais vetores
Golpes românticos, BEC e falsos investimentos têm uma característica em comum:
a tecnologia cria o canal, mas a confiança da vítima conclui o ataque.
Não existe necessariamente exploração de uma CVE.
O atacante se passa por alguém confiável e manipula a vítima para executar uma ação válida.
Isso significa que empresas precisam combinar controles tecnológicos com processos de verificação.
BEC continua sendo particularmente perigoso para empresas
Para organizações, fraudes BEC devem receber atenção especial.
Uma mensagem comprometendo ou imitando:
- CEO;
- diretor financeiro;
- fornecedor;
- departamento de compras;
pode resultar em perdas significativas sem que nenhum malware seja instalado.
Controles recomendados incluem:
- MFA resistente a phishing;
- dupla aprovação de pagamentos;
- validação independente de mudanças bancárias;
- proteção contra spoofing;
- DMARC, DKIM e SPF;
- treinamento de equipes financeiras.
Seguir o dinheiro pode ser mais eficaz que seguir o malware
Um malware pode mudar rapidamente:
- hash;
- domínio;
- infraestrutura;
- código.
O dinheiro precisa, em algum momento, circular por:
- bancos;
- exchanges;
- carteiras;
- empresas de fachada;
- serviços de remessa.
A cooperação internacional permite conectar essas movimentações e atingir a parte da operação que realmente gera receita para os criminosos.
Recomendação CyberX
Empresas devem tratar fraudes financeiras digitais como um problema conjunto entre:
- segurança da informação;
- financeiro;
- jurídico;
- compliance;
- prevenção a fraudes.
A CyberX recomenda estabelecer processos específicos para:
- alteração de dados bancários;
- pagamentos de alto valor;
- solicitação urgente de executivos;
- contatos de novos fornecedores;
- recuperação de contas;
- transferências de criptomoedas.
Qualquer mudança financeira crítica deve exigir validação por um segundo canal previamente conhecido.
Conclusão
A Operation Jackal IV mostra o caráter global e profissionalizado das redes de fraude associadas ao crime organizado da África Ocidental.
Entre novembro de 2025 e junho de 2026, a operação coordenada pela INTERPOL levou a 58 prisões e à identificação de 263 suspeitos, além de bloquear contas, apreender ativos e desarticular estruturas ligadas a fraude e lavagem de dinheiro.
Casos individuais mostram a escala dessas operações: apenas um esquema de falsos investimentos investigado na Romênia foi associado a aproximadamente €143 milhões roubados e lavados globalmente.
Para empresas e usuários, o alerta é claro:
o cibercrime moderno combina tecnologia, engenharia social e infraestrutura financeira profissionalizada. Bloquear o ataque técnico é importante, mas impedir que a fraude seja monetizada é igualmente essencial.
Referências
Esta notícia foi elaborada a partir da matéria publicada pelo The Hacker News em 26 de agosto de 2026 e validada com o comunicado oficial da INTERPOL de 25 de agosto de 2026 sobre os resultados da Operation Jackal IV.

