A Kaspersky identificou em junho de 2026 um malware Android diferente do padrão normalmente observado em smartphones.
O código não apresentava interface e era instalado sem interação aparente do usuário, o que levou os pesquisadores a investigar como ele chegava aos dispositivos.
A análise revelou que o malware estava sendo distribuído através do mecanismo de atualização presente em centrais multimídia Android para veículos, também chamadas de head units. (Securelist)
Segundo a Kaspersky, este é o primeiro caso documentado de uma cadeia de infecção por malware desenvolvida especificamente para centrais multimídia automotivas e entregue através do atualizador integrado do dispositivo. (Securelist)
Quais dispositivos são afetados?
A campanha não atinge qualquer veículo com Android.
Os pesquisadores encontraram o problema especificamente em centrais que utilizam firmware e software desenvolvidos pela DoFun.
A empresa fornece firmware, aplicativos e serviços cloud para sistemas Android de entretenimento automotivo. Segundo informações citadas pela Kaspersky, a plataforma da companhia atende mais de 30 milhões de proprietários de veículos. (Kaspersky)
Isso não significa que 30 milhões de dispositivos estejam infectados.
O número representa a base declarada de usuários atendidos pela empresa, e a pesquisa não divulgou uma quantidade total de centrais comprometidas. (Kaspersky)
Como o malware chega ao carro?
O ponto inicial da cadeia é um aplicativo legítimo chamado:
TWCore
Pacote Android:
com.tw.core
O TWCore faz parte do firmware das centrais DoFun e possui funções legítimas como:
- coleta de dados analíticos;
- recebimento de informações de atualização;
- download de APKs;
- instalação de novos componentes. (Securelist)
O atualizador virou o canal de entrega
O TWCore recebe instruções através de um broker MQTT hospedado em um subdomínio de:
cardoor[.]cn
As mensagens enviadas ao aplicativo informam quais arquivos APK devem ser baixados e instalados. (Securelist)
Os pesquisadores identificaram ainda um parâmetro chamado:
installNotExists
Quando ativado, ele permite que o atualizador instale aplicações que não estavam originalmente presentes no dispositivo. (Securelist)
Foi justamente esse mecanismo que apareceu na cadeia utilizada para distribuir o malware.
Em termos simples
O fluxo pode ser entendido assim:
Servidor de atualização → TWCore legítimo → download de APK malicioso → instalação automática → JarService → novos estágios → fraude publicitária e proxy botnet
O usuário não precisa instalar manualmente um aplicativo malicioso ou clicar em um link.
O próprio sistema de atualização realiza a entrega. (Securelist)
Primeiro estágio: JarService
O primeiro componente malicioso recebeu o nome de:
JarService
Ele funciona como um dropper, ou seja, sua principal função é preparar e carregar o próximo estágio da infecção. (Securelist)
O JarService:
- não possui interface gráfica;
- armazena partes de código criptografadas internamente;
- descriptografa o próximo estágio;
- inicia o loader seguinte. (Securelist)
Essa ausência de interface ajuda a manter a infecção invisível para o motorista.
Segundo estágio se comunica com servidores C2
Depois da execução do JarService, um segundo componente coleta informações sobre o implante e envia os dados para servidores controlados pelos operadores.
A comunicação acontece através de requisições HTTP POST.
O servidor responde com o endereço do próximo payload, que é então baixado e carregado pelo malware. (Securelist)
A Kaspersky conseguiu recuperar sete versões diferentes desse terceiro estágio, indicando que a ferramenta passou por atualizações ao longo da operação. (Securelist)
Malware realiza fraude publicitária
O terceiro estágio possui diferentes comandos.
Entre suas capacidades estão:
- exibir anúncios;
- realizar requisições HTTP;
- abrir páginas em WebView;
- executar JavaScript;
- abrir URLs no navegador;
- modificar conteúdo da área de transferência;
- baixar e executar código adicional;
- coletar informações sobre o dispositivo. (VMTech)
Uma das finalidades da operação é gerar fraude publicitária, fazendo com que os dispositivos infectados produzam interações ou tráfego que podem resultar em receita para os criminosos. (Securelist)
Carro também é transformado em proxy
O segundo objetivo é ainda mais interessante do ponto de vista de segurança.
O malware instala um módulo chamado:
zhima
Esse componente transforma a central multimídia em um proxy reverso. (Securelist)
O que isso significa?
Um proxy permite que outra pessoa encaminhe tráfego de internet através do dispositivo infectado.
Na prática:
Atacante → central multimídia infectada → internet
Para o serviço acessado, a conexão pode parecer originada da rede móvel ou do endereço IP utilizado pelo veículo.
Isso permite que criminosos utilizem o dispositivo como parte de uma proxy botnet.
Por que criminosos querem o IP de um carro?
Endereços IP pertencentes a conexões residenciais ou móveis podem ser valiosos porque tendem a possuir uma reputação diferente da infraestrutura tradicional de servidores.
Eles podem ser utilizados para:
- ocultar a origem real de tráfego;
- contornar bloqueios;
- realizar scraping;
- fraude publicitária;
- automação de contas;
- outras atividades abusivas.
Para os operadores, cada veículo infectado se torna basicamente um novo nó de saída para sua infraestrutura.
Relação com o BADBOX
A Kaspersky atribui a operação, com alta confiança, ao MoYu Group.
Esse ator já havia sido relacionado à infraestrutura do BADBOX, operação que comprometeu diferentes dispositivos Android e IoT para fraude publicitária e serviços de proxy residencial. (Securelist)
Entre as evidências utilizadas para a atribuição estão:
- nomes encontrados no código;
- semelhanças entre componentes;
- sobreposição significativa da infraestrutura de rede;
- relações com serviços anteriormente ligados ao MoYu Group. (Securelist)
A conclusão representa uma atribuição técnica da Kaspersky e não uma identificação judicial dos indivíduos responsáveis pela campanha.
Relação com serviços de proxy
Durante a investigação, a Kaspersky identificou um painel relacionado ao módulo zhima hospedado em:
admin.uipoxy[.]com
O endereço estava associado a infraestrutura utilizada pelo proxy malicioso. (Securelist)
Os pesquisadores encontraram ainda referências aos serviços:
- PXYEDGE;
- ProxyForU.
A Kaspersky observou semelhanças nas APIs de autenticação e outros elementos de infraestrutura e considera que esses serviços possuem conexão com o ecossistema do MoYu Group. (Securelist)
O malware controla o carro?
Até o momento, não há evidências de que essa campanha tenha sido criada para controlar funções críticas do veículo, como:
- direção;
- aceleração;
- frenagem;
- sistemas de segurança automotiva.
O objetivo confirmado pela pesquisa é monetização através de:
- fraude publicitária;
- proxy botnet. (Securelist)
Essa distinção é importante.
Uma central multimídia pode possuir integração com determinadas funções do veículo, mas a Kaspersky não documentou nessa campanha um ataque aos sistemas de controle de condução. (Securelist)
Problema foi comunicado à DoFun
A Kaspersky informou que notificou a DoFun sobre o mecanismo utilizado para distribuição.
Segundo os pesquisadores, a empresa posteriormente comunicou que os problemas de segurança responsáveis pela distribuição do malware foram corrigidos. (Securelist)
A pesquisa não detalha publicamente todas as mudanças implementadas na infraestrutura da empresa.
Indicadores de comprometimento
A Kaspersky publicou uma lista extensa de indicadores relacionados à campanha.
JarService
Alguns hashes MD5 identificados:
ba27951b4ee1c341f4415d033369ecd3
d63bacd6d6709dd68a10ef9d374c7835
6c2e34b30da42085240ede53ab6107d4
8b5e513144a6138a966ea59e68bf9da2
e119845877089d6f4b0a70dc7388f316 (Securelist)
Loader
e9f3a0dab6949ce2cddab9e0aa80ae1a (Securelist)
Infraestrutura observada
144.217.243[.]201
107.151.248[.]132
128.14.210[.]58
Domínios relacionados incluem:
xmsae[.]sbs
ishano456[.]sbs
kookjar[.]com
ue886578433[.]online (Securelist)
Esses indicadores representam infraestrutura observada durante a pesquisa e podem mudar ao longo do tempo.
Como se proteger?
Para consumidores, a situação é diferente de um smartphone convencional.
O usuário normalmente possui pouco controle sobre aplicações de sistema instaladas no firmware da central.
Verifique atualizações do fabricante
Proprietários de centrais DoFun devem utilizar apenas versões e atualizações disponibilizadas através dos canais oficiais do fabricante ou fornecedor do equipamento.
Como a DoFun informou ter corrigido o problema de distribuição, manter o firmware atualizado é uma medida importante. (Securelist)
Evite firmwares de origem desconhecida
Centrais Android aftermarket frequentemente possuem comunidades que distribuem:
- ROMs modificadas;
- firmwares alternativos;
- APKs;
- pacotes de atualização.
Instalar firmware não verificado aumenta significativamente a superfície de ataque.
Empresas com frotas devem inventariar esses dispositivos
Organizações que utilizam veículos corporativos deveriam conhecer:
- fabricante da central;
- versão do firmware;
- mecanismos de atualização;
- conectividade celular;
- aplicativos de sistema instalados;
- fornecedores responsáveis pela manutenção.
Esse tipo de equipamento deve fazer parte do inventário de ativos conectados da empresa.
Análise Técnica CyberX
O ponto mais importante é a cadeia de suprimentos
O destaque desta campanha não é o malware Android isoladamente.
A característica mais preocupante é a forma de distribuição.
A vítima recebe o código através de um mecanismo que deveria representar confiança:
o atualizador oficial do próprio equipamento.
Isso coloca o caso na categoria de risco de software supply chain.
Quando um sistema legítimo possui permissão para instalar software automaticamente, o comprometimento ou abuso dessa cadeia pode atingir dispositivos sem exigir qualquer ação do usuário.
O veículo se tornou um dispositivo IoT valioso
Do ponto de vista do atacante, a central multimídia possui várias características interessantes:
- Android;
- CPU;
- memória;
- conectividade;
- endereço IP;
- funcionamento por longos períodos;
- baixa visibilidade de segurança.
Ela passa a ter características semelhantes a:
- TV boxes;
- roteadores;
- câmeras;
- dispositivos IoT.
Por isso, não é surpreendente que operadores de botnets estejam começando a enxergar centrais automotivas como novos recursos computacionais disponíveis.
O risco atual é digital, não de condução
É importante evitar sensacionalismo nesse caso.
A pesquisa não mostra carros sendo dirigidos remotamente.
O impacto confirmado está concentrado na central Android e na utilização de seus recursos para atividades criminosas.
Mesmo assim, o caso é relevante porque demonstra que sistemas instalados dentro de veículos já passaram a fazer parte de botnets reais, e não apenas de provas de conceito acadêmicas.
Atualizadores automáticos são componentes críticos
O TWCore possui privilégios suficientes para instalar novos APKs.
Essa é uma função legítima e necessária para atualização.
Porém, qualquer arquitetura desse tipo precisa garantir controles robustos como:
- autenticação do servidor;
- assinatura de pacotes;
- validação criptográfica;
- autorização de aplicações;
- proteção da infraestrutura de atualização;
- logging e auditoria.
Uma falha nessa camada pode transformar a infraestrutura de manutenção em um mecanismo de distribuição de malware.
Proxy botnets são difíceis de perceber
Para o motorista, o veículo pode continuar funcionando normalmente.
Não existe necessariamente:
- mensagem de ransomware;
- tela bloqueada;
- aplicativo desconhecido visível.
O principal impacto pode ser:
- consumo de dados móveis;
- utilização de CPU;
- tráfego de rede em segundo plano;
- participação involuntária em atividades abusivas.
Isso ajuda a explicar por que esse tipo de botnet pode permanecer ativo durante períodos prolongados.
O problema também interessa a empresas com frotas
Veículos corporativos estão cada vez mais conectados.
Empresas podem possuir dezenas ou centenas de centrais multimídia instaladas em:
- carros;
- vans;
- caminhões;
- veículos de campo.
Se esses dispositivos possuem conectividade própria, passam a representar endpoints adicionais que precisam ser considerados na estratégia de segurança.
Recomendação CyberX
A CyberX recomenda que organizações com frotas ou projetos de veículos conectados incluam centrais multimídia e gateways Android no processo de gestão de ativos.
Fabricantes e integradores deveriam tratar mecanismos OTA e de atualização como infraestrutura crítica, aplicando:
- assinatura obrigatória de atualizações;
- verificação criptográfica antes da instalação;
- controle de quais pacotes podem ser adicionados;
- certificados e chaves protegidos;
- telemetria de instalações anormais;
- capacidade de revogar componentes comprometidos.
Para o usuário final, a principal medida é manter o firmware atualizado e evitar modificações ou pacotes de fontes não confiáveis.
Conclusão
A campanha descoberta pela Kaspersky representa um marco relevante para segurança automotiva.
Pela primeira vez, pesquisadores documentaram uma cadeia de malware criada especificamente para centrais multimídia Android de veículos e distribuída através do próprio sistema integrado de atualização. (Securelist)
O malware não foi projetado, segundo as evidências disponíveis, para controlar o veículo. Seu objetivo é monetizar os recursos da central através de fraude publicitária e uma rede de proxies. (Securelist)
Ainda assim, o caso deixa um alerta importante:
carros conectados também possuem computadores conectados à internet — e esses computadores já se tornaram alvos economicamente interessantes para o cibercrime.
Referências
Esta notícia foi elaborada a partir da reportagem publicada pelo The Hacker News em 21 de agosto de 2026 e validada com a pesquisa técnica original publicada pela Kaspersky Securelist na mesma data. (The Hacker News)







