O que aconteceu?

A TrendAI Research descobriu um conjunto de pacotes npm que aparentam oferecer funções legítimas relacionadas a datas, calendários e acompanhamento de sequências.

As funções prometidas realmente funcionam.

O problema é que os pacotes também carregam um executável ELF malicioso para Linux, disfarçado no código como se fosse um componente nativo destinado a acelerar cálculos matemáticos. (TrendAI)

Os pesquisadores relacionaram 14 nomes de pacotes à campanha:

  1. streak-metrics-math
  2. kit-map-vim
  3. streak-map-cache
  4. streak-map-kit
  5. map-streak-kit
  6. streak-cache-map
  7. streak-calc-metrics
  8. streak-calc-math
  9. streak-math-abz
  10. streak-metricsaz
  11. streak-math-metrics
  12. streak-metricazbd
  13. streak-metricsazb
  14. streak-kit-map (TrendAI)

O primeiro pacote também foi encontrado nas versões 1.0.0 e 1.0.1; os demais foram documentados na versão 1.0.0. (TrendAI)

O malware executa quando o pacote é importado

O aspecto mais importante da campanha está na maneira como o código malicioso é iniciado.

Em muitos ataques contra o ecossistema npm, os criminosos utilizam scripts como:

preinstall

ou

postinstall

para executar código automaticamente durante a instalação.

Nesta campanha isso não é necessário.

O arquivo:

dist/index.mjs

contém uma rotina executada automaticamente quando o módulo é carregado. O código localiza o binário escondido, altera suas permissões para torná-lo executável e o inicia como um processo separado em segundo plano. (TrendAI)

Em termos simples

O fluxo pode ser resumido assim:

Pacote npm → importação pelo Node.js → localização do binário ELF → permissão de execução → RedShell iniciado em segundo plano → conexão com servidor C2

O desenvolvedor não precisa chamar nenhuma função maliciosa explicitamente.

Segundo a TrendAI, uma única importação em qualquer ponto da árvore de dependências pode ser suficiente, inclusive quando o pacote chega como dependência transitiva e não foi escolhido diretamente pelo desenvolvedor. (TrendAI)

--ignore-scripts não impede essa técnica

Uma medida comum de segurança no npm é utilizar:

npm install --ignore-scripts

Essa opção impede a execução de diversos scripts automáticos durante a instalação.

Porém, segundo a TrendAI, esse controle não bloqueia a cadeia observada nessa campanha, porque o malware é iniciado no momento em que o módulo é importado, e não através de um hook de instalação. (TrendAI)

Isso reforça que a proteção de dependências não pode depender exclusivamente do bloqueio de scripts do npm.

Binário malicioso se passa por componente matemático

Os pacotes carregam o mesmo implante RedShell utilizando diferentes nomes de arquivo.

Entre os nomes encontrados estão:

math-core.bin

math-calc.bin

calc-math.dat

calc-cache.bin

calc.bin

calc-mapping.bin (TrendAI)

Os arquivos aparecem dentro do diretório:

dist/

ou:

dist/internal/

A utilização de nomes relacionados a cálculos ajuda o binário a parecer coerente com a funcionalidade legítima apresentada pelo pacote.

O que é RedC2?

O RedC2 é um framework de Command and Control que vem sendo desenvolvido pelo menos desde 2025.

A versão 4.0 foi anunciada em junho de 2026 e introduziu um implante Linux nativo chamado:

RedShellLinux (TrendAI)

O framework é divulgado publicamente como ferramenta de operações ofensivas e foi anunciado em fóruns por um ator utilizando o nome MarlboroMan. O RedC2 oferece suporte a implantes para:

  1. Windows;
  2. Linux;
  3. macOS. (The Hacker News)

A presença do RedC2 dentro dos pacotes npm não significa, por si só, que o próprio desenvolvedor ou vendedor do framework seja necessariamente o responsável por publicar os pacotes.

A pesquisa demonstra a utilização da ferramenta na cadeia, mas não atribui publicamente a campanha a um operador específico.

O que o RedShell consegue fazer?

A variante Linux analisada possui um conjunto amplo de comandos pós-exploração.

Entre as capacidades documentadas pela TrendAI estão:

  1. execução de comandos através de /bin/sh;
  2. coleta de informações do sistema;
  3. enumeração de usuários e processos;
  4. listagem de interfaces e conexões de rede;
  5. upload e download de arquivos;
  6. coleta de chaves SSH;
  7. busca por credenciais de navegadores;
  8. identificação de bancos de dados;
  9. criação de usuários;
  10. execução de novos binários diretamente na memória;
  11. execução de shellcode;
  12. criação de proxies SOCKS5;
  13. encaminhamento de portas;
  14. túneis para movimentação pela rede. (TrendAI)

Persistência

O malware também suporta diferentes mecanismos para continuar sendo executado depois do comprometimento inicial.

Entre eles estão:

  1. cron;
  2. .bashrc;
  3. serviços systemd em nível de usuário;
  4. XDG Autostart. (TrendAI)

A disponibilidade efetiva de cada ação depende das permissões que o processo comprometido possui na máquina.

Roubo de chaves SSH merece atenção especial

Entre os comandos encontrados está:

/ssh_keys

Segundo a TrendAI, essa função procura e exfiltra chaves SSH e arquivos de configuração. (TrendAI)

Isso torna a campanha particularmente relevante para ambientes de desenvolvimento.

Servidores Linux, estações de desenvolvedores e agentes de CI/CD podem armazenar chaves que permitem acesso a:

  1. servidores internos;
  2. ambientes cloud;
  3. máquinas de produção;
  4. repositórios privados;
  5. outros sistemas Linux.

Em um cenário de comprometimento, essas credenciais podem permitir que o atacante avance além da máquina inicialmente infectada.

Malware consegue executar arquivos sem gravá-los normalmente no disco

O RedShell também suporta execução de ELF através de:

memfd_create

Esse mecanismo permite colocar um executável em uma região de memória tratada como arquivo e executá-lo sem a necessidade tradicional de gravar o segundo payload em um caminho permanente no disco. (TrendAI)

O malware também possui suporte para carregar shellcode diretamente em memória.

Esse tipo de recurso pode reduzir os artefatos disponíveis para soluções que dependem principalmente da análise de arquivos gravados no sistema.

RedC2 possui assistente de IA

Outro elemento destacado na pesquisa é um componente chamado:

Red Agent

Ele integra modelos de linguagem ao painel de operação do RedC2.

Segundo a documentação analisada pela TrendAI, o operador pode fornecer uma instrução em linguagem natural, e o Red Agent transforma essa intenção em uma sequência ordenada de comandos suportados pelo framework. (TrendAI)

Exemplo conceitual

Em vez de o operador executar manualmente várias etapas para:

identificar o sistema → procurar credenciais → localizar arquivos → coletar dados

ele pode fornecer um objetivo mais amplo ao agente, que organiza as ações utilizando os comandos já existentes no RedC2.

É importante diferenciar essa capacidade de afirmações mais amplas sobre “malware autônomo”.

A pesquisa descreve o Red Agent como uma camada de assistência operacional baseada em LLM. Isso não demonstra que o malware tome sozinho todas as decisões de uma invasão ou opere sem supervisão humana. (TrendAI)

Comunicação com o servidor C2

A variante Linux analisada tenta se conectar ao endereço:

217.60.77[.]63

na porta:

8792/TCP (TrendAI)

A comunicação é encapsulada em TLS, porém a análise mostrou que o implante desativa a validação do certificado do servidor.

Isso permite que a infraestrutura de comando utilize certificados autoassinados ou inválidos sem impedir a conexão do malware. (TrendAI)

Indicadores de comprometimento

A TrendAI publicou indicadores técnicos relacionados ao implante.

SHA-256 do RedShell Linux

4537B1189CE419F1A595CF47216C03F80E9170CE80DAD8D9227A1E52F9CB3466 (TrendAI)

Servidor C2

217.60.77[.]63:8792 (TrendAI)

Arquivos encontrados nos pacotes

dist/internal/calc-cache.bin

dist/math-calc.bin

dist/calc.bin

dist/internal/calc-mapping.bin

dist/math-core.bin

dist/internal/calc-math.dat (TrendAI)

Esses indicadores devem ser usados em conjunto com telemetria comportamental, pois nomes de arquivo e infraestrutura podem ser alterados rapidamente pelos operadores.

Quem corre mais risco?

A campanha é especialmente relevante para organizações que utilizam npm em sistemas Linux, incluindo:

  1. estações de desenvolvedores;
  2. servidores de desenvolvimento;
  3. agentes de CI/CD;
  4. servidores de build;
  5. containers de desenvolvimento;
  6. pipelines automatizados.

A ameaça é particularmente séria nesses ambientes porque eles frequentemente possuem acesso a segredos necessários para construir e publicar software.

Isso pode incluir:

  1. tokens npm;
  2. tokens GitHub e GitLab;
  3. chaves SSH;
  4. credenciais cloud;
  5. variáveis de ambiente;
  6. chaves de deploy;
  7. segredos de pipelines.

Como se proteger?

Organizações devem começar verificando se algum dos pacotes identificados aparece em seus projetos.

Revisar lockfiles

Procure os nomes relacionados à campanha em:

package-lock.json

npm-shrinkwrap.json

e outros inventários de dependências.

Também é importante verificar dependências transitivas, e não apenas as bibliotecas declaradas diretamente no package.json.

Procurar os binários

Em máquinas Linux potencialmente afetadas, devem ser investigados arquivos com nomes como:

math-core.bin

math-calc.bin

calc-math.dat

calc-cache.bin

calc.bin

calc-mapping.bin

especialmente quando encontrados dentro de diretórios node_modules. (TrendAI)

Monitorar execução originada pelo Node.js

Um comportamento particularmente relevante é:

Node.js → alteração de permissão de arquivo → execução de ELF dentro de node_modules.

A TrendAI sugere monitorar atividades de chmod envolvendo os caminhos utilizados pelos binários da campanha. (TrendAI)

Revisar credenciais

Se houver confirmação de execução do implante, a resposta não deve se limitar a apagar o pacote.

Como o RedShell possui recursos para buscar chaves SSH e credenciais de navegadores, segredos acessíveis à máquina comprometida devem ser considerados potencialmente expostos. (TrendAI)

Isso pode exigir rotação de:

  1. chaves SSH;
  2. tokens de repositórios;
  3. tokens npm;
  4. credenciais cloud;
  5. segredos CI/CD.

Análise Técnica CyberX

O principal risco é a execução na importação

O aspecto mais relevante desta campanha não é apenas a presença de um binário escondido dentro dos pacotes.

É quando ele é executado.

Bloquear preinstall e postinstall continua sendo uma boa prática, mas esse ataque demonstra que um pacote pode permanecer aparentemente inativo durante a instalação e executar o malware apenas quando for carregado pelo código.

Isso reduz a eficiência de controles que olham exclusivamente para o processo:

npm install

A telemetria precisa continuar acompanhando o comportamento da dependência durante a execução da aplicação.

Dependências transitivas ampliam o problema

Outro ponto crítico é que um desenvolvedor não precisa necessariamente escolher um dos pacotes maliciosos diretamente.

Se uma biblioteca confiável passasse a depender de um componente desse tipo, ele poderia entrar na aplicação de forma transitiva.

Por isso, verificar apenas as dependências presentes diretamente no package.json fornece uma visão incompleta da superfície de ataque.

Ferramentas de Software Composition Analysis e SBOM ganham importância justamente por permitirem mapear toda a árvore de dependências.

CI/CD é um alvo extremamente valioso

Um agente de build Linux comprometido pode possuir credenciais com alto nível de privilégio.

Um cenário possível seria:

dependência npm → RedShell → token do pipeline → repositório ou registry → comprometimento de novos artefatos

Não existe evidência pública de que essa sequência específica tenha ocorrido nesta campanha.

Mas ela representa uma consequência tecnicamente plausível das capacidades confirmadas do malware e explica por que ambientes de build precisam de isolamento e credenciais de curta duração.

IA reduz a complexidade para o operador

O Red Agent também merece atenção, mas sem exagerar sua função.

Ele não cria uma nova capacidade fundamental de invasão.

Os comandos de coleta, movimentação e execução já fazem parte do framework.

O que a camada de IA potencialmente reduz é a complexidade operacional necessária para utilizar essas funções.

Um operador menos experiente pode descrever um objetivo em linguagem natural, enquanto o agente organiza as ações necessárias.

Isso pode reduzir a barreira técnica para utilização de ferramentas ofensivas avançadas.

Detecção baseada apenas em IOC terá vida curta

Hash, IP e nome de arquivo são úteis durante a resposta imediata.

Porém, todos podem ser modificados.

Os sinais mais duradouros nesta campanha são comportamentais:

  1. pacote JavaScript carregando ELF nativo;
  2. chmod em binários dentro de node_modules;
  3. Node.js iniciando processos nativos inesperados;
  4. execução em segundo plano logo após importação de módulo;
  5. conexões incomuns de agentes de build para infraestrutura externa;
  6. acesso inesperado a diretórios .ssh.

Esses padrões continuam relevantes mesmo depois que os atacantes alteram nomes e hashes.

Recomendação CyberX

A CyberX recomenda que empresas que utilizam npm em pipelines Linux implementem três camadas de defesa.

Dependências

  1. SCA;
  2. SBOM;
  3. revisão de novos pacotes;
  4. pinagem de versões;
  5. lockfiles versionados.

Ambiente de build

  1. agentes efêmeros;
  2. menor privilégio;
  3. tokens de curta duração;
  4. restrição de tráfego de saída;
  5. isolamento entre pipelines.

Endpoint e runtime

  1. EDR em servidores de desenvolvimento;
  2. monitoramento de processos filhos do Node.js;
  3. detecção de ELF executado a partir de node_modules;
  4. monitoramento de acesso a chaves SSH e segredos.

Conclusão

A descoberta de 14 pacotes npm trojanizados mostra novamente como ataques à cadeia de suprimentos conseguem transformar uma dependência aparentemente simples em um ponto de entrada para comprometimento de ambientes Linux.

Nesse caso, os pacotes realmente entregavam as funcionalidades prometidas, mas também iniciavam silenciosamente o RedShell, implante do framework RedC2 4.0. (TrendAI)

O malware possui recursos para execução remota, coleta de credenciais, persistência, movimentação de rede e carregamento de novos payloads, enquanto o RedC2 adiciona uma camada de assistência por IA através do Red Agent. (TrendAI)

Para empresas, a principal lição é direta:

uma dependência não deve ser considerada segura apenas porque funciona como anunciado. O comportamento executado por ela é tão importante quanto a funcionalidade que entrega.

Referências

Esta notícia foi elaborada a partir da matéria publicada pelo The Hacker News em 21 de agosto de 2026 e validada com a investigação técnica original publicada pela TrendAI Research em 20 de agosto de 2026. (The Hacker News)

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